
A cereja do boloPor Alessandra Leles Rocha
Saber o que vem pela frente, desvendar os segredos e mistérios do futuro, descobrir tudo aquilo que o amanhã nos reserva antes mesmo de desvendá-lo, esse é o sonho de consumo da maioria dos mortais.
Mediante tantas transformações e evoluções da sociedade ficamos mais pertos dessa satisfação com o surgimento de uma nova legião de idosos. Posto abaixo a ditadura da vovozinha de óculos e avental cuidando dos netinhos, e do vovozinho jogando xadrez na pracinha do bairro, essa turma vem compartilhar conosco as maravilhas de viver na zona de conforto da velhice, onde tudo é permitido.
Sim! Eles agora estão livres dos rótulos, das expectativas, da correria em busca do sucesso, das responsabilidades parentais, enfim… é hora de colher e celebrar. Viver! A vida conclama esses indivíduos a unir experiência aos sonhos, usufruir cada dia as possibilidades apresentadas. Absolvidos pelas marcas do tempo são leves e desenvoltos para manifestarem suas opiniões; enquanto nós ainda cativos nos equilibramos nas cordas bambas do cotidiano. Avanços nas ciências, sobretudo na Medicina, ajudaram significativamente nessa libertação dos idosos. Com mais acesso a cuidados e tratamentos, sua expectativa de vida ampliou qualitativa e quantitativamente, impulsionando-os a querer e esperar mais de sua existência. Eles não querem sobreviver, eles querem viver!
Quem não podia fazer exercícios fosse pela falta de saúde, de tempo, de incentivo ou de vontade, hoje esbanja vitalidade e entusiasmo nas academias e nos salões de baile. Muitos viveram anos de reclusão, tolhidos pela família ou pelos próprios parceiros, então nas asas dessa liberdade tardia se lançam a realizar projetos, como andar de bicicleta, aprender a surfar, voar de asa delta, saltar de paraquedas. Aqueles cujo desejo maior era encontrar a felicidade nos braços da alma gêmea saem em busca do grande amor. Mesmo aqueles cuja situação econômica não favorece a grandes feitos e ousadias, ainda sim eles buscam dentro de suas realidades o beneficio desse novo status da velhice. Abertos as novidades eles se destacam como uma parcela importante no mercado de trabalho e fomentam o surgimento de novos nichos consumidores. Além de não poderem viver somente da aposentadoria, os idosos descobriram querer mais do que a vida tem para oferecer.
Tantas histórias, experiências, novidades e grandes lições ensinadas. Nutridos da vaidade salutar, aquela que agradece o passar dos dias, mas realça os encantos da maturidade, seu compromisso não é aparentar menos idade e sim estar bem e muito feliz pelo longo caminho percorrido. Quanta segurança! Quanta coragem! Quanta sabedoria! E nós ainda insistindo em atrasar os relógios, hein! Nossos velhos estão encontrando seu pote de ouro no final do arco-íris; sem pressa, sem desatino, cumprindo fiel a cartilha, se Deus quiser também desfrutaremos nosso quinhão dessa felicidade. Afinal, já sabemos que a velhice é sim a “cereja do bolo”, por isso nada de desperdiçá-la!
Alessandra Leles Rocha , É natural de Uberlândia, Minas Gerais, onde se graduou Bacharel em Ciências Biológicas (2000) e Mestre em Geografia / Área de Concentração: Análise, Planejamento e Gestão Sócio-Ambiental (2003), pela Universidade Federal (UFU).
