
(*) Esta matéria é forte.
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Orgasmo: Fazedor de Céus e Construtor de Infernos
Esta semana, da mesma forma que acontece de quinze em quinze dias, (às sextas feiras às 21 horas) nos reuniremos um grupo de pessoas entre as quais se encontram psicanalistas, médicos, psicólogos e outros profissionais de diversas disciplinas, para declinar palestras sobre sexualidade.
Estes workshops se sucedem na Rua Augusta 736, endereço da boutique “Abusada”, “consultório” informal, mas muito apropriado, pois, é aí onde minhas filhas expõem e vendem a mais destacada, fina, seleta e confortável lingerie de São Paulo por elas criada, mágico incentivo para o amor que é, será e que, ido, renascerá naturalmente com seu uso: “À dor, Amores”.
Finalizada essa etapa se escolhe o nome do palestrante e se decide sobre o tema que será abordado na reunião vindoura.
Nesta sexta feira serei eu quem deverá dissertar. O tema que me foi designado é “Orgasmo”.
Anunciado o fato, em princípio o tomei com a maior naturalidade, porém, a seguir, verificando que (quase) tudo sobre orgasmo havia sido dito e cantado, preocupei-me com o hábito insoslaiável que me toma quando, ao fazer a crônica que for, procuro alguma vertente inexplorada cujo caudal deságue nalgum porto escondido.
Eis, palavra mais, palavra menos, o que deverei manifestar nesta sexta feira:
“Porque o amor é forte como a morte, suas chamas são de fogo e tenaz como o inferno” / “Estando meu rei sobre o divão o meu nardo começou a exalar o se perfume” / “Ele introduziu-me e ordenou em mim o amor” / “Teu bálsamo é melhor do que o vinho e seu cheiro o melhor dos perfumes” / “O odor do teu bálsamo destila mel e leite; mel e leite estão sobre tua língua / “Comi o teu favo quando destilava o mel, bebi seu vinho e seu leite”. (Antigo Testamento: Cânticos dos Cânticos).
Não começa, pois, como se vê, a elegia ao orgasmo e a bebida mútua do licor de toda sua magnificência nestes tempos recentes, senão o recolhem todas as manifestações do homem desde sua pintura rupestre e primeira escrita. Tampouco o ignorou a religião do culto que for exaltando-o através dos seus mais harmoniosos cantos e suas mais representativas formas de arte e de relatos.
No didatismo pela sua procura, continuidade, estabilidade, beneplácito e adoração, ensinaram-nos os Vedas há mais de 3.000 anos seu Kama Sutra, onde detalham pormenorizadamente todo o malabarismo de sua arte, desfraldado de uma forma diferente todos os dias, em 365 posturas e deleites.
Não houve jamais formação nem divisão de paises, riquezas, misérias, conflitos bélicos, familiares nem religiosos na terra, sem que o orgasmo não representasse seu papel preponderante, mesmo que suas causas e origens hajam sido revertidas a protagonistas e argumentos das mais coletivas e abrangentes motivações.
Não houve ciclos históricos do matiz que quisermos abranger ou deslindar procurando nas suas ínfimas minúcias, onde não encontremos um Paris sem Helena, um Julio César sem Cleópatra, um (São) João Batista sem Salomé, um Henrique VIII sem Ana, um Eduardo sem a Duquesa de Windsor, um Romeu sem Julieta, um Dante sem Beatriz, um Luis XVI sem Maria Antonieta, nem um Pedro I sem Marquesa de Santos, operando nesse exercício cósmico para semear a hecatombe ou a glória.
Orgasmo independe de parceria, espécie e classe, mas depende da sexualidade que os seres e as coisas nos produzem para se revelar em seu grau de maior expressão.
Assim, os sexos mais definidos e afirmativos o buscam em seu hermafroditismo mais recôndito, e soem disparar seu bang-bang constelar no abraço antropo – zoomorfo de uma lubricidade sem par.
Conto, numa crônica verídica denominada “A gaivota” que me outorgara o primeiro prêmio num Concurso Nacional de Contos realizado pela revista Ficção e cujo cheque me entregou em mãos Cícero Sandroni atual Presidente da Academia Brasileira de Letras, como, o protagonista que recolhera à cela uma gaivota com sua assa fraturada, apaixonando-se por ela a estupra e, em quanto agoniza estrebuchando com as tripas de fora é tomado de um orgasmo antes nunca obtido com ninguém cuja intensidade o derruba inerte no catre.
Esta crônica que está no meu livro a ser lançado, “Tesão Recolhido”, acompanha outra, “O aguente”, onde, um anão de genitália monstruosa monta uma égua manga larga e logo uma vaca holandesa, ante o prazer, gritos, uivos, ais, gemidos em fim algaravia disparada de centenas de espectadores de “ambos os três sexos”, (como defino os assistentes) sentindo-se todos eles cavaleiros ou cavalgados, segundo o orgasmo que atingem à solta todos esses anônimos, partícipes solidários e coletivos sem vergonhas do que não se atreveram a ser com mais alguém à sós.
O orgasmo em si é a consubstanciação, onde o pão é a carne e seu fluido o vinho da própria eucaristia.
Não relutou o profeta em dizê-lo em seus cânticos nem as santas chagadas clamando por seu Marido quando ele as percorria em ondas sem contenção. “Amo-te Senhor de tal maneira que se não houvesse céu amar-te-ia e se não houvesse inferno temer-te-ia”, clama em êxtase Santa Teresa de Jesus.
Pimenta Neves no desespero de perder o mel, vinho e leite de seu favo amado para outro comensal matou sua portadora sem nenhum rito de transigência, hesitação nem comiseração e, o pai de menina Nardoni, ante as reclamações de supostos distúrbios de orgasmo cujo transtorno cobrava à dependência afetiva de sua filha Isabella como rival, exigiu-lhe seu holocausto.
O obteve.
O alcaide Paulo Maluf, neófito de metáforas orgásmicas rendeu-lhe pleitesia a tão sublime ato numa absolvição prévia ainda que atrapalhando substantivos: “Se quere orgasmar estupre, mas não mate”.
Também a encantadora prefeita Marta Suplicy, acuada pelos gritos, vitupérios e ameaças dos passageiros famintos, insones, doentes e sujos presos no aeroporto que lhe chegaram até gritar “E agora, prostituta?”, apelou a ele para apaziguar tais desesperados com sua sapiente elegância de sexóloga: “Agora, só relaxar e orgasmar”.
Ou gozar que é a plenitude de um mesmo sinônimo.
Marco Ferrari (Pessoal e Intransferível). Autorizada sua reprodução total ou parcial mencionando a fonte.
